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domingo, 13 de setembro de 2020

Variações III ...




Para qual lado foi a vida?
Depois que a tempestade passou,
Devastou tudo, só restou a solidão.

Um amor desesperado
Dessas dores da paixão,
Dando voltas calado,
Gira feito pião.

Para que lado foi o beijo
Que faz com que tudo aconteça
Foi-se calado, nas asas de uma ilusão.

Variaciones III

¿Qué camino tomó la vida?
Después de que pasó la tormenta.
Todo fue devastado, solo quedó la soledad.

Un amor desesperado
De estos dolores de la pasión,
Dando vueltas silencioso,
Gira como un peón.

¿Qué camino tomó el beso?
Que hace con que todo acontezca
Fuese callado, en las alas de una ilusión.

(Adilson Shiva)

Um sol de quase outubro...




Em seus olhos ainda me vejo sem sombras,
Iluminado pela luz de um sol de quase outubro,
Desfolhado da nossa primavera, que um dia terminou.
Palavras me escapam, guardo o silêncio
Das noites sem estrelas ...

Un sol de casi octubre…

En tus ojos aún me veo sin sombras,
Iluminado por la luz de un sol de casi octubre,
Deshojado de nuestra primavera, que un día terminó.
Me escapan las palabras, guardo el silencio
De las noches sin estrellas…

Adilson Shiva

O recalque originário e a foraclusão do Nome-do-Pai.

 O recalque originário e a foraclusão do Nome-do-Pai.

 




No seu texto "Die Verneinung"(1925) (traduzido como denegação); Freud argumenta que o juízo de atribuição é anterior a um juízo de existência articulado em uma denegação, uma vez que deve haver uma representação prévia do que é negado. Este julgamento interroga sobre a diferença ou a semelhança entre uma representação e uma percepção e diz respeito ao reencontro do objeto de satisfação. Freud propõe que antes da "Verneinung" (denegação) deve haver uma "Bejahung" (afirmação) que ocorre ao mesmo tempo que uma "Ausstossung" (expulsão), operação que ele entende como constitutiva do psíquico e regulada pelo princípio do prazer. Expulsão do desprazeroso, inclusão do prazeroso, primeira distinção entre um dentro e um fora.
Desse modo, a denegação é uma formação tardia a serviço do recalque.
Em “História de uma neurose infantil: O Homem dos Lobos” (1918), Freud já havia nos advertido da diferença entre a Verwerfung (foraclusão) e o recalque. A negação inerente à “Bejahung” (representado por Freud junto com a noção de “Ausstossung”) instaura o recalque primário (Urverdrängung) e participa da estruturação do sujeito neurótico. A noção lacaniana de foraclusão encontra uma de suas origens nesse rechaço fundador (Verwerfung). A "Verwerfung" (foraclusão) é um obstáculo à representação significante do que ficou fora da "Bejahung" (afirmação) primordial; então, se o recalque é formador de sintomas, no sentido analítico do termo, a foraclusão gerará fenômenos diversos, como alucinação e outros fenômenos elementares.
Na alucinação, não se trata de um transtorno perceptivo, mas da presença de um S1 no real, desconectado de S2, sem nenhum efeito de significado, mas que provoca uma experiência enigmática que é vivida pelo sujeito com um sentimento de perplexidade, pois ele não conta com a significação fálica que lhe permitiria construir uma resposta subjetiva para essa experiência. No autismo, me parece que não há esse sentimento de perplexidade, o autista se utiliza de outros recursos para o tratamento do significante no real.
Foraclusão do significante Nome-do-Pai, provoca um buraco no simbólico. Esse buraco no simbólico aparece redobrado no nível do significante e no nível do significado.

Comentarios sobre O seminario 20 – Cap. V
Aristóteles e Freud: A Outra Satisfação
Adilson Shiva
12/09/2020

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Uma conversa sobre a passagem ao ato...

Para começarmos, faremos uma breve distinção entre acting out e passagem ao ato.

Em ambos os casos, o sujeito vai construindo uma cena ou pelos menos atua no marco de uma cena.

Todavia, no acting out identificamos uma mostração, uma mostração desafiante frente ao Outro desfalecente, o Outro que falha. Falha em quê? Falha como suporte, como leitor e interpretante do desejo do sujeito. Este, por sua vez, ao não conseguir fazer-se reconhecer no seu desejo, mostra-o mediante uma ação, e o faz, porque falha a articulação significante e o objeto resto dessa articulação é mostrado numa cena no real.

Lembremos da crítica de Lacan em “A Direção do Tratamento...” do caso apresentado por Ernest Kris que é conhecido como “O homem dos miolos frescos”, o paciente sai da sessão e vai “comer miolos frescos”.

É importante essa diferença entre o acting out e a passagem ao ato, porque o sujeito não se identifica com o objeto, mostra-o numa ação através de uma cena no real. Há uma falha na estruturação fantasmática, uma falha na articulação significante e isso é o que se manifesta na mostração. Esse será o nosso ponto de partida.



A passagem ao ato também é uma cena, relatada ou consumada; e neste momento eu quero esclarecer outra coisa. Se, o acting out é endereçado ao Outro, portanto reservado à estrutura neurótica, a passagem ao ato não. A passagem ao ato é verificável em todas as estruturas psicopatológicas.

Tal como no acting out, a passagem ao ato é uma cena, mas não é uma cena que surpreende, talvez na esquizofrenia algumas vezes, mas nem sempre. Ela chega ao analista de forma direta ou através de relatos e vai deixando pistas.

A passagem ao ato é anunciada, na neurose geralmente é anunciada, e é uma das coisas que também a diferencia do acting out onde o Outro é tomado pela surpresa da mostração.

Na passagem ao ato o sujeito se encontra com alguma coisa que pouco a pouco vai crescendo, numa velocidade variável em termos vitais. O sujeito, pouco a pouco, começa a se revelar em posições de identificação ao objeto dejeto.

Por essa via, a cena da passagem ao ato vai tomando cada vez mais e mais as instâncias da vida do sujeito. É uma cena que se desenrola e se configura num crescendo até a cessão brusca, o gatilho que é o ponto fatal do último ato, ponto de ruptura da cena.

Neste ponto de ruptura, a configuração da cena da passagem ao ato que foi se tornando progressiva já é absoluta, é total, e ao sujeito não resta outra opção senão rompê-la, rompe-a se identificando absolutamente a um dos elementos dessa cena, fazendo-a cessar. Contrário ao que se desenrola no acting out, onde o Outro é desfalecente e falho, aqui o Outro vai crescendo, se tornando absoluto.

Em geral, todos nós temos uma instancia ideal com a qual tratamos de nos identificar.

Na passagem ao ato esse ideal vai migrando para o lado do Outro e o sujeito vai se identificando com o objeto dejeto, perde seu suporte narcísico.

Isso vai chegando na clínica uma, duas vezes ...

É bom ficar atento, porque na passagem ao ato o sujeito se identifica com o objeto e sai bruscamente de cena.



(Adilson Shiva)